domingo, maio 27, 2007

UM LINDO VÔO DE LIBERDADE

Havia várias laranjeiras e tinham funções diversas, mas a mais alta era o meu caminho para a liberdade . Ao chegar ao topo, depois de muito esforço pra espantar o medo e muita indecisão, eu me sentia desligada de tudo que me prendia àquele mundo restrito e cheio de proibições e era com se estivesse a quilômetros daquele chão. Nessa hora, respirava vitoriosa e plena de mim mesma. E me sentia liberta e dona do meu destino.
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Esta segunda-feira começou com um céu cinzento e jeito de inverno. E com uns silêncios evocadores de coisas de não lembrar. Da hora de acordar a hora de sair de minha cama , já percorri minhas habituais trilhas que me levam a muitos lugares e a poucas perspectivas. Assim como um ator em seu cenário de papelão, onde ele sabe que aquela árvore lá no fundo não existe de verdade, é só uma idéia de árvore. E que aquele caminho florido, com um lindo lago fazendo a curva, termina em um espaço escuro, com cheiro de mofo e teias de aranha, em um prédio qualquer.. Havia um placo na minha vida, quando eu era outra pessoa e ia tocar piano e ficava assustada com aquelas folhagens de tecido de um verde desbotado, com uns anjinhos amarelecidos e apáticos, que lá estava já há muitos anos, esquecido por todos e ali permanecendo como parte de um passado que ninguém sentia necessidade de apagar. E eu, meio assustada nos meus nove anos de criança , encontrava ali meu segundo despertar para o mundo que até pouco tempo se resumira a uma grande e velha casa, cheia de portas, um belo arvoredo, meu pai, minha mãe, meus avós e a idéia de que tudo era muito longe , lá de onde às vezes surgiam pessoas muito bem vestidas, parentes da cidade grande, que nos esmagavam com sua superioridade, suas lindas roupas e eram quase aquelas figuras dos filmes de sábado à noite, ou das matinês de domingo à tarde.O primeiro contato com o mundo fora a ida à escola. E eu queria muito aprender a ler, e por mais que tivesse esquadrinhado os escritos do Correio do Povo, que às vezes meu pai comprava aos domingos, não conseguira decifrar como é que aquele milagre se engendrava.Voltei ao escuro palco. Um cheiro de umidade e mofo paira no ar e eu me sinto dominada por este espaço enorme, um salão que termina em dois palcos , um em cada ponta. Por que dois? Uma semibreve vale quatro tempos, a mínima, dois, e as teclas eram lisas e amareladas, e eu amava estar ali, diante daquele piano que era um instrumento musical, mas que eu adivinhava seria também o instrumento pelo qual eu sairia em vôo magnífico daquele chão embarrado de nosso quintal, das proibições de minha mãe, olharia o arvoredo lá de cima, conheceria lugares antes só vislumbrados ao subir na mais alta árvore de onde eu perscrutava os mistérios da vila, as casas do centro, tanta coisa a conhecer . Seria tão bom estar de novo no alto daquela árvore, a mais alta laranjeira de ver bem longe, seria bom...Você tinha sua pedra e eu, de repente lembrei da minha velha árvore na qual eu subia com muito medo de cair (cuidado, não vá cair daí de cima), um medo que me ensinaram e que eu, sempre muito obediente, fiz questão de aprender. Daria tudo para poder estar lá novamente e agora então, eu subiria e olharia novamente as casas lá do centro da vila, respiraria como criança aqueles ares, a plenos pulmões,sentindo-me dona do meu destino e talvez me jogasse lá de cima, um lindo vôo de liberdade, e matasse pra sempre o temor de estar viva, o temor de ser feliz, o temor de dizer não ao que me sufoca aos poucos. Seria bom...

EU. . . EXISTO !!!

Você, ao nascer, já recebe um número na pulseirinha. Pelo menos era assim no tempo em que lembro de bebês em hospitais. Aí então vem a certidão de nascimento, com um novo número cheio de algarismos. Toda sua história será marcada por esses sinais . Você provavelmente não sabe todos de cor. Há pessoas que decoram os mais importantes : RG, CPF, Conta Bancária. . . Você, gostando ou não, é um zero vírgula zero, zero ,zero e alguma coisa muitos zeros depois, nos cálculos estatísticos. Quando se aproximam os feriadões, lá vêm os noticiários falando de que no ano anterior morreram vinte ou trinta nas estradas, tantos carros bateram, tudo isso só pra avisar que neste que se aproxima a polícia rodoviária estará tomando tais precauções, que os motoristas devem fazer aquilo que todos sabem , mas muitos não cumprem e, de certa forma, anunciando o próximo espetáculo macabro das estradas. Sem falar nos rotineiros assaltos e sequestros. Tudo que a fria estatístca pode prever baseada em dados que manipula como mágica e que são bastante precisos, veja-se o caso das pesquisas de opinião.Além de tomar os cuidados necessários, você só pode rezar para que sua vez de engrossar as fileiras de tal senhora não chegue tão cedo. No mais é seguir em frente e ficar frio.Já nascemos predestinados pela herança genética, pela condição social de nossos pais e, a partir daí, podemos ser enquadrados em tabelas e mais tabelas, de cálculo da nossa situação em relação a uma possível obesidade, dos parâmetros da psicologia onde estaremos catalogados como tipos específicos quanto ao nosso perfil psicológico e agora, com os avanços da engenharia genética, as criaturas humanas, de certa forma, vão poder dar uma rasteira na Dona Natureza, pela manipulação dos nossos cromossomas com objetivos pretensamente positivos.Mas, conhecendo a racinha que nosso amado Deus plantou, confesso que estou um tanto pé atrás com tudo isso. Falando em Deus, o pobre virou artigo de marketing religioso. O grande mercado da fé , de tanto abusar e usar seu santo nome, está começando a criar um tal desgaste no Divino Criador que minha vizinha ontem, ao saber que a UNIVERSAL comprou a TV GUAÍBA, o último reduto dos gaúchos onde a gente podia "ouvir" um pouco o gauchês, gritou desesperada:- Assim não dá mais, eu to ficando com raiva de Deus!! Comprar a nossa TV Guaíba!!!Sinal dos tempos, ou será desgaste mesmo? E onde andará aquele Deus da minha infância, distante, superior, discreto? Vai ver cedeu seus direitos a uma multinacional...Se bobear, foi mesmo pras profundas do infinito deixando aqui um clone diabólico.Como eu dizia, estamos mais enquadrados que aquarela pequena naquelas molduras avantajadas. Aí moramos num local numerado, nosso espaço foi medido e calculado milimétricamente pelo engenheiro, nossos pés de bicho com sapatos, ou tênis, ou chinelos devidamente numerados, muito cimento por baixo , por cima e pelos lados, resultado de montanhas de cálculos de engenharia e arquitetura . E lá de dentro o pobre do bicho gritando por liberdade, por espaço, por movimento. Há os que conseguem gastar 15 milhões na compra de uma jaula de luxo, com três andares de solidão. Casas inteligentes, além de todo o conforto estéril. Você, lá de longe, programa sua casa como a quer encontrar: quais luzes estarão acesas, a água na banheira, na altura e temperatura desejadas, o ar condicionado no ponto, elevadores internos para não subir escadas. As portas que se abrem mediante senhas farão o cidadão adentrar ao seu lar apertando botões, passando cartões magnéticos, tudo em conformidade com o que melhor existe no mundo de hoje. Mas não há tecnologia capaz de substituir o gosto de ouvir a água caindo na banheira ou do chuveiro, após girarmos as torneiras quente e fria procurando a melhor temperatura. Nada melhor do que usar um pouco as mãos em texturas diversas, interruptores, trincos, botões de aparelhos.E aquelas medidas aproximadas, mas bem mais poéticas, como os PALMOS de fundura das sepulturas, as LÉGUAS DE BEIÇO,uma forma divertida de dizer que o gauchão, ao dar uma informação, ESPICHAVA os lábios pra frente e levantava o queixo em uma direção dizendo: É LÃÃÃÃN ! E também poderíamos dar DOIS PASSOS ou TRÊS, colher uma PENCA de frutas, uma BRAÇADA de flores, semear um PUNHADO de grãos, trazer uma FIEIRA de peixes e enfim, dar DOIS DEDOS de prosa...Entretanto, você não existe sem os números que o identificam. O único resquício humano nos documentos são as fotos e o polegar direito carimbado na sua RG. Certa vez, estando a recenseadora em nossa casa, meu filho então com onze anos correu atrás dela julgando que não teria sido incluído na contagem. Achamos muita graça, mas por essas coisas pode-se avaliar que a questão não é simples . Ele era um menino que levava tudo muito a sério e não constar nos números do Censo parecia-lhe algo ameaçador e perigoso, como o de sentir-se destituído de existência real. E, mesmo não sendo o caso, ele estava com a razão. Não se pode andar sem uma identificação por aí. Como diz o comercial, sem o registro de nascimento, "você não existe". Assim, poderíamos partir para uma divagação filosófica sobre a nossa real presença no universo e criaríamos a seguinte variação para a frase de Hamlet: EXISTIR, OU NÃO EXISTIR, EIS A CERTIDÃO !!!

sábado, maio 26, 2007

HUMANIDADE PRESERVADA

Cartas! E ainda se escrevem tantas! E lá se vão os envelopes devidamente preenchidos no rumo do destinatário. Nesse vai e vem de mensagens, muita coisa desviou-se , outras caíram em mão erradas e nunca foram entregues, outras ficaram ignoradas na caixa de correspondência e nem sequer foram abertas.Em outros tempos as cidades pequenas nem tinham carteiro, precisava-se ir à agência saber de uma possível missiva. Chegar lá e sair de mãos vazias era uma frustração na minha vida de menina que vivia a escrever e estava sempre contando com ter nas mãos um envelope branquinho. Abrir devagarinho para não destruir o conteúdo e então saber novidades de uma amiga que se mudara há pouco para longe, podia ser um assunto para preencher dias de entretenimento recriando as frases e imaginando muito além do que fora dito. Mas as cartas que interessavam eram as dos rapazes. Elas podiam ser de um namorado,de um correspondente que se conseguia com uma amiga, mas especialmente, de uma grande paixão.Há alguns anos atrás, quando minha mãe faleceu, eu não quis pegar uma caixa onde ela guardara muitas cartas de um período feliz de minha juventude. Depois, até pensei que tinham jogado no lixo. Há pouco tempo fiquei sabendo que uma de minhas sobrinhas, ao ver aquele verdadeiro "acervo" de um tempo em que ela não era nem nascida, ficara encantada com o fato e dissera que de jeito nenhum isso iria ser destruído. Fiquei a pensar por que essa menina resolveu salvar minha correspondência de trinta anos atrás. O que a levou a querer preservar registros de um passado pra ela longínquo da vida de uma mulher que não quis, ela própria, conservar tal preciosidade? Isso me fez refletir e lembrei que outro dia um senhor que administra o pequeno museu da cidade falou-me que muitos adolescentes fazem visitas frequentemente. Um dado interessante que, associado a este outro fato, talvez queira nos indicar que essas crianças e jovens quem sabe estejam à procura de referências mais ricas, pois nasceram num mundo acelerado, onde muita tecnologia não anda no mesmo compasso da valorização da vida. O que buscam nas velhas caixas de cartas antigas, na calma dos museus que acenam com tempos mais tranquilos? Na certa saber coisas de quando os avós moravam nas casas com os netos, ver aquele velho rádio, uma grande caixa de madeira que na sua simplicidade falava de divertimentos quase ingênuos, com as vozes de locutores para falar das coisas distantes num mundo que era vasto e pouco conhecido, sem as complicações da vida moderna. Ou aquela sombrinha cuja dona já morreu há anos e que ainda guarda no tecido sem cor alguma vibração de uma tarde alegre. Mas principalmente sentir que suas vidas estão ligadas a um outro tempo, que eles não surgiram de uma máquina ultra- moderna, que afinal sua humanidade está preservada naquela velha casa, com todos aqueles indícios de que a cidade não apareceu de repente, que teve uma lenta história da qual as lembranças resistem em velhos baús, caixas com guardados de toda espécie, fragmentos da presença humana nas mais variadas formas. Os meninos precisam disso, precisam saber e mais , precisam sentir essa ligação com o passado, para estabelecerem um caminho seguro daqui pra frente ,sem lacunas e sentindo-se acompanhados pelas presenças que sentimos, por todo lado nos observando, quando andamos pelos museus. Uns olhos bondosos, curiosos, contemplativos, você nunca sentiu?

AFINAL, QUEM SOMOS NÓS OS TUPINIQUINS?

Os tupiniquins e os tupinambás eram os primitivos habitantes na região central do país, onde aportaram os portugueses pela primeira vez. Hoje eles não são muito lembrados , apesar de a língua tupi ainda estar presente mais do que muita gente tenha conhecimento, no idioma português. Infelizmente, dentro de uma visão racista em relação aos índios,adotou-se o epíteto tupiniquim, para designar o que há lá fora e que, transposto para nossa realidade, sofre uma espécie de mutação para pior. Passamos assim, a ter atitude depreciativa de dominados,em relação à nossas características particulares, em uma atitude depreciativa de quem só valoriza o que vem de países ricos.Desde que o mundo é mundo ,sempre houve houve opressores e oprimidos. Nem as maneiras de estabelecer esse domínio mudaram tanto. Assim fizeram os romanos em relação à Grécia e os portugueses, no momento em que começaram a explorar as riquezas do país, a partir de 1700. A receita é a mesma: impõe-se a língua do vencedor e a partir daí passa-se a um trabalho de desaculturação para facilitar o domínio. Em nosso país, enquanto não havia aqui interesse comercial, falou-se a língua tupi. Mesmo o padre Manoel da Nóbrega, falava fluentemente essa língua. No início do século XVIII, com o incremento da exploração de minérios, pedras preciosas e outras riquezas Portugal exportou para cá seus escrivães e outros funcionários encarregados da coleta e exportação dos produtos.Estes falavam e, principalmente, escreviam o português. Assim, aos poucos, a língua indígena foi se recolhendo para sítios mais restritos.Quanto a nós hoje em dia, não escapamos ao individualismos doentio e selvagem resultante de uma visão capitalista numa sociedade onde os valores estão se degradando e onde tudo passa a ser permitido desde que gere lucros. O que vemos no mundo é essa febre de fazer dinheiro com dinheiro, grandes empresas como a Nike engolindo outras também grandes, numa antropofagia assustadora que põe na tela arrepiantes previsões dignas da mais audaciosa ficção científica. E, nesse contexto, a sociedade brasileira assiste à barbárie se instaurando em todos os seus níveis: são meninos ricos matando gratuitamente aquele que eles NÃO consideram um igual, como o índio Galdino, morto há alguns anos atrás, e isso está totalmente relacionado à visão de mundo de quem está em posição privilegiada. São meninos pobres virando bandidos capazes de qualquer coisa pois também respiram esses novos ares, com a agravante de se sentirem totalmente marginalizados e a tevê dizer todos os dias em lindos comerciais que se você não tiver isto ou aquilo, não será ninguém. Por que a Índia, com muito mais pobreza do que o Brasil, tem bem menor índice de violência?Recebi na época da campanha eleitoral um email, onde um professor da USP deu-se ao trabalho de achincalhar o atual presidente com argumentações no mínimo impróprias para um catedrático de tão alto gabarito. Não creio que ataques preconceituosos contra a condição social de uma pessoa, sua raça ou seu defeito físico, sejam a melhor maneira de provar que um candidato é ruim. Entre outras coisas, disse que Lula é o Forest Gump TUPINIQUIM e faz sucesso lá fora como raridade, tal qual o mico- leão- dourado. Então comete RACISMO, depreciando a CULTURA INDÍGENA,ao usar a palavra TUPINIQUIM de forma pejorativa. Como aliás, vê-se muito por aí, "na versão tupiniquim..." de alguma coisa estrangeira logicamente muito superior. Que tipo de superioridade admiramos? Ou fomos condicionados a admirar por uma propaganda massiva e constante com o único fim de destruir os valores "tupiniquins"?Tenho no meu quarto um balaio feito pelos índios. Deixei –o num lugar bem visível e nunca esqueço daquela mulher de olhos puxados no meu portão com um menino num braço e o tal balaio no outro. Aquela gente jogada pelas calçadas um dia foi dona dessa terra e não precisava mendigar para viver. Nós ainda trazemos na língua que falamos a música e a ternura desses povos ancestrais. Eles são nossos verdadeiros pais. A eles devemos, se outra coisa não podemos dar, pelo menos um grande respeito. Xingar alguém de tupiniquim é rejeitar sua própria identidade cultural, suas origens, isso sim, é se auto-depreciar como povo .

sexta-feira, março 23, 2007

CENTAURO CIBERNÉTICO

Já vai longe o tempo em que os seres humanos tinham uma só classificação, a de homo sapiens. Com o advento da cibernética, tal criatura foi-se tornando um híbrido, algo como aquela figura mitológica metade homem metade besta, mas com a agravante de agora a parte não humana ser constituída por uma reles máquina chamada computador. Os novos centauros são seres cujo corpo une-se à máquina pelas mãos e pela mente.Esta nova condição permite ao novo centauro imaginar que está em comunicação com o mundo inteiro, visto a poder falar com pessoas a quilômetros de distância, executar compras sem sair de casa, ter acesso a todo tipo de informação, leitura, além de lançar aos quatro ventos suas idéias em blogs, sites e tendo ainda milhares de opções de lazer, informação e relacionamentos. Entretanto ele está dentro de uma sala e tudo que tem é uma tela diante dos olhos, olhando com seu olho de máquina impávida e fria. Falar em solidão no virtual é ser solitário em dobro. Diante desta tela e teclado, estamos sempre sozinhos e na melhor das hipóteses, com a ilusão de companhia. As amizades existem no antigo modo condicional do verbo, se eu um dia, quando tu qualquer hora, sempre que nós, talvez ainda hoje, quem sabe. Na melhor das circunstâncias teremos um amigo flutuante, cujas respostas dependerão sempre de muitos senões e dificuldades. Nossa ansiedade na expectativa de um sinal aberto, de uma palavra que denuncie a tão esperada mensagem, fará nossas mãos tremerem e errarem a tecla, nosso nervosismo em buscas estranhas fará nossa adrenalina exacerbar e, sem conseguir descarregar toda essa energia convocada, teremos o humor alterado em agressividade que poderá voltar pra dentro da telinha, atingindo um alvo qualquer. Há pessoas que se dizem imunes àquilo que chamam de picuinhas, discussões inúteis, lavação de roupa suja. Mas para atingir tal condição, ou não interagimos com ninguém, o que é quase impossível, ou ficamos abanando a cabeça como vaquinhas de presépio que a qualquer toque ragem de forma sempre idêntica e mecânica. Já temos aqui nossa imagem bastante incompleta pela ausência da presença física, com todas as informações que ela traz, com sua cor, som da voz, movimentos e vida. Aí viramos uma foto, quando ela existe, que manda beijinhos, diz olá, faz versinhos rimados, enfim, criaturas que relegam sua humanidade ao quartinho dos fundos, colocando na sala de visitas uma cópia de si mesmas feita de material sintético que emite letreiros repetitivos. Aí está o homem, a pessoa humana reduzida a mero robô- papagaio, um louro virtual cujos sentimentos expressam-se de forma pasteurizada,repetitiva, visto que estão acionando somente o compartimento para contatos superficias e descompromissados, onde há umas vinte fórmulas com as quais o robô pessoa interage com seus "semelhantes".Vivemos então de esperar e lançamos nossa voz pra dentro da escuridão desta noite de breu. Como numa pescaria em águas desconhecidas, lançamos nosso anzol que voltará vazio muitas vezes, o que não será compensado pelas raras presas que eventualmente nos reservar. Receberemos peixes imprestáveis como uma página que se infiltrou em nossos domínios,ou comerciais e tantos outros conteúdos que circulam sem se chocar. Um trânsito caótico mas onde nada colide com nada. Não há regras na forma de passear por aí. Tudo se movimenta e, na nossa mania de colocar as coisas em compartimentos, diremos "desse lado tem isso"," vou para mais longe", numa tentativa inútil de "organizar" o caos em nossas mentes, o caos de bilhões de assuntos, sob as mais variadas formas. Se você resolver acampar em algum sítio, tome cuidado. Nada do que parece é nestes domínios. A começar pelas classificações apresentadas, possibilidades vislumbradas em anúncios, criaturas e ambiente de confraternização. Principalmente se você resolver assumir posturas mais explicitas sobre qualquer assunto polêmico. Aí o caldo entorna. Se aqui fora, tal ação já porduziria seus estragos, no mundo dos IPS esta temeridade será sempre brindada com safanões, xingamentos e cobranças de indignados seres que virão te exigir satisfações. Você terá os aplausos também, sempre há quem apóie nossas posturas, mas não conte muito com isso . A maioria dos seres que aqui navegam, tendem a preferir uma flutuação patética onde o que menos importa é a coerência, a tomada de posição e uma atitude compreensiva de apoio a quem cair em desgraça. Conte com um ou dois apoios, dê-se feliz por poder desabafar um pouco e sentir esses pontos fixos imaginários falando com você como uma pessoa.Neste verdadeiro vale-tudo interativo, toda temeridade lhe será cobrada. Então você terá o direito de permanecer em silêncio e tudo que disser será usado contra você.

LA TUCANITA

Caramba, como dizia meu avô, xô égua,como dizia meu pai, ach tu liebe tzeit, como dizia minha vó, ach tu liebe Got noch ein mol. E como diria meu avô italiano: ma oggi io iré contar la storia de una múlie vechia que sara la chefa di noi gauchos, fara los bombachas de troxas. Mas meu idioma preferido é mesmo o portunhol, falado na fronteira gaúcha com os países do Prata, hombres machos del Rio Grande que irán obedecer a la entojada y trocar las botas y bombachas per un saiotito paulista. Hay que combater las pragas tucanitas en Rio Grande do Sul, pero jo que no cria en brujas, ahora, vendo tal candidata, no só lo creo, como tengo certeza que las ay. Si,si,el "capaceton" es también el clone, que ao deitar-se, jo tiengo certeza, retira la peruca y la mascara, después apierta el botonozito de off, passa oleo al cuerpo y vuelve per la capsula de energización. Ya la viste faciendo tiau, abanando com la mano? Me parece que fué desmontada y después la montaram mal, aí quando ergue el braso, lheva arriba todo el tronco, e el resultado: vien a parecer una marionete empalhada.Qué lastima! Los gauchos quieren mismo un gobierno moderno, tanto que terán como gobernante un robot feminino, cosa inedita en la ciencia hodierna. Los bravos gauchos iran dançar la conga en logar de "el pezito" ou la "chula" mui mascula. Ella gobiernará con manos de ferro, pero literlamente, dado su natureza robotica. Margareth Tatcher, a su lado, va parecer mucho femenina y suave. Ya la vejo entrando al palacio y los lacaios gauchos estendiendo el tapete rojo. Nadie de chimarron, que nojo! Ella solo bebera mineral francesa, como su companero Maluf. La residencia sera redecorada y adaptada para conter tal entidad. Una camera de energización sera instalada al lado del gabinete. No serán recebidos estraños sin una revista apropriada. Finalmente, los hombres obedecerán sen un pio e quando Rigotto ou Simon aparecerem, aguardarón sentados. Nuestra prima gobiernante mujer, como era esperado, es mas mascula que muchos hombres.E no se surpreendam si, al correr del tiempo, tendo vendido todo el patrimonio estatal, sucateado la UERGS y los projetos sociales,ferrado con lo que resta de la agricultura, continuado con el misearable plano de Rigotto,del plantio de especies destruidoras del solo para favorecer quien pode comprar tierras y tener lucro facil, sin gerar empregos, vengam a decir que la corrupción de Lula dechó las finanças del Rio Grande em estado lamentable. Pueblo gaucho, ustedes serán atropelados por un tsunami y non perceberán de onde hay sido arremessado, tal vossa ceguera. Y ahora, voy a descansar, porque escribir al portunhol, una lingua muy falada al Rio Grande, en sus fronteras, me dechó derrubada. Mas solo una cosita más: los gauchos, elegendo tal mujer, no olvidarán jamás tal acto. Y estarán a confirmar, realmente, que tienem Coca-cola nas veias, un cerebro de fast-food, estomago de avestruz y uno corazón de latinha di cerveza. Sin hablar en la miopia cronica y en un defecto de fabricacion qui los deja incapacitados al julgamento mas simples. Una revolucion de los tiempos hodiernos. Viva la modernidad, viva el sucesso de los medios massivos de comunicación. Ustedes fizeran un belo trabajo! Derecha, volver! !

AS TRÊS MARIAS

Carta a um amigo.Sinto muita falta da Maria Pândega, mas ela sucumbiu à Maria menina e está presa e inibida por este momento político. A Milu, meu lado dona de casa e mãe, está um pouco amuada, apesar de tentar manter a menina sob uma certa proteção, tentando evitar muita afoiteza, que sua experiência sabe ser arriscada. Mas a atual Maria-menina-querida-do-papai domina a cena."Eu, Maria, desde criança, quando meu pai me levava aos comícios naquela cidadezinha quase aldeia de minha infância,sabia que , mais que os guris da casa, era eu sua "herdeira", no que ele sentia como exercício de cidadania, apesar de nunca ter ouvido falar disso. A palestra do governador era acompanhada pelo rádio, sem uma palavra, por esse estranho grupo, meu pai, meu avô e eu. O Rio Grande em três gerações de resistência." É difícil não ceder a esse lado "afetivo" de nossa formação e assim, quando surge a hora de entrar na peleia, a Maria criança toma conta e dita as ações. E através dela, revivem meu avô, bisavô, meu pai, toda a indignação que os movia a querer defender o país das investidas estrangeiras, haja visto que o Rio Grande sempre teve brigas de fronteira. Mas principalmente o espírito dos ventos franceses que haviam deixado seus vestígios, liberdade,igualdade, fraternidade, ideais que emocionavam e uniam pessoas sob a mesma bandeira humanitária. E a Milu foi descartada. A Maria crinça que manda os emails pra ti, é uma brasileira bem intencionada e que procura se informar do que acontece por aí em fontes mais seguras. Mas ela entende a dificuldade de pessoas que não tiveram a mesma vivência e oportunidades, em assimilar este momento histórico.A Maria menina-mulher sobe à mesa para dançar, como nos carnavais distantes,sob o olhar dos adultos admirados. Não quer mordaças, sua avidez não entende entraves. Instintivamente, fareja a grandeza de rostos torturados pela miséria e a sordidez do lucro fácil. Na sua velha casa sem conforto, a melhor fortaleza que uma criança podia encontrar: dignidade, exemplo, muito amor e generosidade. A menina subterrânea não espera ser chamada. Ela aflora e assume seu lugar. Ela é capaz de morrer por suas convicções e por isso mesmo sentirá o peso do desprezo. Nada resolverá quererem impor a ela qualquer caminho. Ela aceita dialogar, mas não aceita mordaça. A pedra em que foi forjada tem a capacidade de transmutar-se em matéria fluida. Assim, alça vôos de superação, paira acima da rigidez dos regulamentos e ressurge como recém-nscida.Jamais esperem dela apoio a atitudes preconceituosas com os mais humildes. É muito fácil pisar em quem não tem nada. É muito covarde tripudiar sobre as mazelas do povo. Nós intelectuais de merda, não temos o direito de fazer texto-deboche sob nenhuma condição. Fere por demais a sensibilidade da criança que mora em mim, ver os achincalhes nessa pretendida literatura que traz o ranço do preconceito social, disfarçado em luta pela moralidade.Essa menina está sempre pronta a usar sua espada, mas logo, logo, voltará para sua trincheira. E aí faremos uma trégua. Até quando? Talvez por pouco tempo.Na velha lua traço meu caminho,na lua nova, ergo minha espada!Abraços da Pândega, da Milu e da atual mulher-menina.PS.: Não condeno tua opção política, visto ser uma decisão que parte de uma pessoa bem intencionada e de caráter, mas não aceito aqueles que se arrogam o direito de julgadores e se lançam como paladinos da moral e bons costumes, cheios de rancor e preconceitos, aliados a uma servilidade crônica de subalternos covardes esperando a esmola. Mas piores que estes, são os que rejeitam seus irmãos mais pobres por puro esnobismo, uma pequenez de espírito que revela a sordidez do ser humano em pessoas travestidas de bem educadas, boa família e que tem nojo de tudo que não seja FTP. Para eles, a Maria menina reage com umas bulitas arremessadas por sua "funda"(bodoque).Acabou de imprimir-se. 23 de outubro de 2006

DO APLAUSO DESVAIRADO AO SUMIÇO SEM DÓ

Aqui no mundo virtual é como no real, me dizia um amigo que conquistei nestas paragens. Sinto ter que discordar. Aqui é bem pior.Explico. O maior problema que encontro não são os chamados psicopatas ou sociopatas que alguns acusam como perturbadores e criadores de situações complicadas, até coisa bem píor. Isso até existe, mas como no mundo real, em proporção bem reduzida comparada ao número das chamadas pessoas normais.O maior problema está justamente neste grupo considerado de conduta adequada, pelo menos à primeira vista. Pois as chamadas pessoas normais compõe-se das mais variadas criaturas, em termos de idade, nível cultural, interesses, crenças, atividade política, sem falar nos aspectos psicológicos e sociais, onde teremos sérios candidatos a mau caratismo, individualistas doentios, desonestos em geral, aproveitadores, exibicionistas, egocêntricos, e a lista fica bem grande. Longe de mim querer pousar de santa coroada, que não o sou. Mas posso afirmar que o que tenho visto em termos de condutas estranhas por aqui, daria para escrever um livro.Tive pretensos amigos que descartei, tive fãs declarados, fãs desvairados, recebi xingadas de pessoas desconhecidas, declarações de apoio inesperadas. Outro dia uma escritora disse que eu ia virar personagem de um livro dela. Por conta da indignação que sentiu quando fui atacada por outra recantista, ela me contou que escreveu um poema. Se a gente não estiver bem firme da cuca, pode até surtar por conta de tantas situações em que a perplexidade quase nos deixa paralisados. Eu estou sentindo tal pressão. Fico admirada de ver pessoas dizerem que pra elas aqui é tranquilo, que elas escrevem lá suas coisas, não mexem com a vida dos outros, e tudo corre normal. Mas as coisas mais loucas que me ocorreram, foram por conta de pessoas que elas sim, se meteram na minha existência, para o bem ou para o mal. E não falo daquelas raras com quem tive diferenças por formas de encarar certos acontecimentos. Falo de gente que caiu do céu mesmo e me achou.Certa vez uma menina de catorze anos, fez um comentário em caixa alta dizendo que eu era isso, a melhor , por que eu ainda não tinha editado, e tal, que era minha maior fã. Passado esse dia, nunca mais apareceu. Outro dia vivi um momento inédito em que um fã me contatou da forma mais inseperada. Estou contando tudo numa crônica que ainda não foi publicada. E a história, diante da minha enésima perplexidade, terminou sem nem sequer um bilhete de adeus. Ele sumiu nas ondas da NET assim como surgiu, como um ser de outra galáxia que fizesse comigo um daqueles contatos diretos e depois sumisse com sua nave na escuridão do espaço.Entretanto e isso é o que conta, recebi muito de algumas poucas pessoas, mais do que poderei lhes dar, tenho certeza. Acho que um pouco do meu êxtase se deve a um temperamento um pouco exacerbado, latino, apesar da mistura de raças que me produziram. Tenho o gosto do drama, sou eloquente e apaixonada nas contendas.E agora sou mais uma das milhares de pessoas nesta rede de interloucos que, após ter sido lançada às alturas por uma pessoa totalmente empolgada, vê-se completamente abandonada por esta mesma criatura, sem nem sequer um lencinho branco de adeus.Por outro lado, fica muito engraçado ver que todos os sítios onde se reúnem e convivem muitas mil pessoas, apresentam ao candidato seu regulamento. Mas o pior acontece apesar dos regulamentos. Nâo há regulamentos que impeçam pessoas de te fazer de boba, isso não consta nas regras, de te acenar com uma possibilidade e depois sumir, de te declarar leitura eterna e dias depois auto deletar-se. Não há regras que façam as pessoas ficarem mais honestas,mais críticas, mais inteligentes, mais cultas, mais verdadeiras. Pessoas de verdade e não simples internautas carentes desejosos de encontrar alguma audiência ocasional. Não há leis capazes de fazer tais milagres. O problema está mal enfocado, quando normas passam a ser a coisa mais importante em um agrupamento. A partir daí aprende-se que nestas paragens a maioria das pessoas sente-se na liberdade de não cumprir nem as mais elementares regras de convivência e boas maneiras, que dirá outras que envolvam dignidade, posturas coerentes e compromisso com princípios. Aí já seria querer demais!!!

ESPIRRANDO OS ESTORVOS

Essas epidemias de gripe, atribuídas ao período de inverno são, principalmente, as epidemias de carências que afloram, o fluxo e refluxo das almas em suas eternas agonias de mares bravios, e os espirros querem pôr pra fora, com mais ou menos veemência, as coisas que nos atormentam, aquilo que queremos expulsar para nos sentirmos livres de "incômodos" que estamos tendo que suportar. Então, atingido o limite do suportável, desencadeia-se o processo de gradativa volta à normalidade.Depois de ter espirrado um fim de semana inteiro, espirros terríveis, mas que, segundo uma vítima deles, dão uma sensação de orgasmo, acho que encontrei finalmente a "paz" na segunda-feira, tendo "espirrado" pra fora de casa toda a família, e me sentindo maravilhosamente sozinha. E o seria completamente, não fora a presença do meu gato preto que ainda é um estorvo onipresente.A gripe é muito providencial. Ela vem pra nos ajudar a dar nome a nossa irritação, ao nosso desconforto gerado por desejos nunca satisfeitos, ela "autoriza" até o mau humor. Justifica todos os chutes no gato e na porta, sem falar na finalidade de espantar uma companhia indesejada. Ela te faz poder estar presente sem "ter" que fazer uma porção de coisas não desejadas. Ninguém te convida para ir àqueles lugares que tu detestas, ninguém te diz pra colocar tal roupa ou pentear melhor o cabelo. Tu ficas simplesmente livre no recinto sagrado do lar e tudo que fizeres vai ser apreciado como um "sacrifício", mesmo que, sendo dona de casa como eu, a comida venha de fora e tu não cumpras a maioria das tarefas rotineiras.Por isso não há remédio pra curar a gripe. Ela vem pra nos ajudar e não devemos varrê-la tão afoitamente. É ela quem nos cura e vai embora quando "queremos", mas com aquele querer mais escondido, aquele que sabe das nossas verdadeiras necessidades.

A VERDADEIRA LIBERDADE

Na semiobscuridade as palavras bailam entrecortados ritmos, enquanto o ar se torna pesado e os gritos de pássaros distantes ressoam qual ameaças de mau agouro. Sentimentos estranhos fogem de seus domínios e ganham vida própria. Ódios esverdeados, tristezas azuis, paixões escarlates, desprezos amarelos, indiferenças acinzentadas, iniquidades desbotadas. Estão todos à solta, enquanto o homem dorme. Estão todos livres para a loucura permitida do sonho. Palavras dirão o indizível, sentimentos caberão em todos os recantos, o ódio e o amor farão sua aliança, enquanto o monstro censor faz um cochilo. Uma linda criança brincará perto do lago, a bela criatura de olhos verdes e corpo de borboleta dançará entre as folhagens. Uma grande máquina de lavar poderá vir com seu passo arrastado ao nosso encontro. Poderemos voar sobre planícies, vendo o sol nascer lá atrás das montanhas. Sentiremos medo, talvez, em algum momento. Mas logo reagiremos virando a página...Poderemos conversar com quem já se foi desse mundo, ver seus rostos bem compostos, rindo pra nós, nos confortando. Veremos cores e formas estranhas, árvores carregadas de frutos magníficos, casas de outros tempos ou de tempo algum.O sonho é como um grande rio onde todos se banham. E nele estamos todos unidos por uma energia ancestral que habita dimensões desconhecidas pela mente desperta. Nossos sentimentos passeiam livres e tomam formas estranhas. Assim, estando muito carentes podemos em sonho ser abraçados estreitamente por uma pessoa querida. Estando enraivecidos, podemos deparar-nos com uma fera tenebrosa. E sentindo saudades de outros tempos, lá nos vemos passeando e rindo com amigos ausentes.O sonho desconhece as fronteiras, não tem nenhum requisito pra existir. Sua força nasce das profundezas de um insondável desconhecido. Neste um terço de vida em que passamos dormindo, muitas vidas paralelas coexistem com o nosso ínfimo estar acordados, pensando no trabalho, no que vamos fazer no domingo, a quem vamos agaradar, qual o destino que daremos ao dinheirinho que pintou. Sonhar é estar em contato direto com o mistério mais recôndito do existir. É estar ligado ao imponderável, ao mais maravilhoso exercício de liberdade. Sonhar é mergulhar em águas calmas, é ser levado por um mar revolto com leveza, é andar em passadas largas e leves, sentir com muita força e abandonar sem receios o nosso corpo pesado.Ao sonhar, nossa individualidade se anula, o sonho é a maior expressão de interação entre os indivíduos e num instante podemos ser nosso vizinho e ele, o cachorro vira-lata que anda pelo bairro. Podemos amar nossos inimigos, apaixonar-nos pela pessoa mais desprezível, dizer coisas horríveis a nossa mãe. Mas tudo tem sua razão de ser, mesmo as coisas aparentemente absurdas.Fechar os olhos e dormir é o grande mistério dessa existência, é a hora em que vamos ao encontro de nossa verdade mais escondida, é quando verdadeiramente acordamos para o universo e seus mistérios, é quando mansamente, mergulhamos na eternidade.

ELES NÃO SE DEIXAM LIBERTAR FACILMENTE

Os tupiniquins e os tupinambás eram os primitivos habitantes na região central do país, onde aportaram os portugueses pela primeira vez. Hoje eles não são muito lembrados , apesar de a língua tupi ainda estar presente mais do que muita gente tenha conhecimento, no idioma português. Infelizmente, dentro de uma visão racista em relação aos índios,adotou-se o epíteto tupiniquim, para designar o que há lá fora e que, transposto para nossa realidade, sofre uma espécie de mutação para pior. Passamos assim, a ter atitude depreciativa de dominados,em relação à nossas características particulares, em uma atitude depreciativa de quem só valoriza o que vem de países ricos.Até a segunda guerra macaqueamos a França, que pelo menos nos ofereceu um modelo com melhores valores. Depois a "América" passou a dominar, impondo sua modernidade predadora. Era um progresso que deixava a todos embasbacados e pelo qual a natureza ainda paga um alto preço. Eles se autodenominaram assim, numa demonstração de dominadores. Outro dia um garoto me falou que sendo apresentado para uma norteamericana ela teria dito:I'm american, ao que ele respondeu: I'm american too, from South America. Ela teria olhado pra ele de forma estranha sem comentar. Nada contra a menina, ela só reflete uma mentalidade e uma maneira prática que eles tem de ver o resto do mundo, tudo são "business", "money", nós somos grandes, a América somos nós, fomos ao Iraque para salvar o povo tirando-o das garras de Saddan. Conta-se que ante a resistência de um iraquiano em receber ajuda de um soldado, este teria comentado: "os iraquianos não se deixam libertar facilmente."O neoliberalismo nasce dessa mesma visão de"liberdade". Desde que o mundo é mundo ,sempre houve houve opressores e oprimidos. Nem as maneiras de estabelecer esse domínio mudaram tanto. Assim fizeram os romanos em relação à Grécia e os portugueses, no momento em que começaram a explorar as riquezas do país, a partir de 1700. A receita é a mesma: impõe-se a língua do vencedor e a partir daí passa-se a um trabalho de desaculturação para facilitar o domínio. Em nosso país, enquanto não havia aqui interesse comercial, falou-se a língua tupi. Mesmo o padre Manoel da Nóbrega, falava fluentemente essa língua. No início do século XVIII, com o incremento da exploração de minérios, pedras preciosas e outras riquezas Portugal exportou para cá seus escrivães e outros funcionários encarregados da coleta e exportação dos produtos.Estes falavam e, principalmente, escreviam o português. Assim, aos poucos, a língua indígena foi se recolhendo para sítios mais restritos.Os nossos "libertadores", através de políticos e imprensa engajada, vem alardeando há tempos a idéia de que os governos devem privatizar empresas estatais porque só trazem prejuízo. Assim, já nos livramos de vários desses chamados entulhos sem ser comprovado nenhum resultado. Ao contrário do que se argumentou a favor dessas transações, no auge da euforia no primeiro governo de FHC, a dívida só fez aumentar, passando de 500 bilhões para o atual um trilhão.Nesse trem da alegria, vendeu-se um empresa como a Vale do Rio Doce ,em 1997, numa legítima ação de entreguismo,por três bilhões e meio, quando ela, só no primeiro trimestre daquele ano, faturara essa quantia. Em outubro de 2005 a juíza Selene Maria de Almeida resolveu abrir um processo de anulação da referida venda, sob alegações inquestionáveis. Em dezembro do mesmo ano conseguiu reabrir o processo que agora deve começar a ouvir testemunhas. A primeira acusação é que a empresa encarregada de fazer a avaliação, a Merrill Linch, era ligada a que comprou, tendo passado a ela informações sigilosas e subavaliado a empresa.Além disso, cita-se a participação do Banco Bradesco como consultor e que mais tarde viria a tornar-se acionista. Outra irregularidade refere-se à venda de 26 milhões de hectares, o que fica muito além dos dois mil permitidos, sem que se passe pela aprovação do Congresso. Além disso, a presença de urânio nos minérios extraídos, por si só, deveria sustar a venda, lembra a juíza. Sem falar no dinheiro do BNDES do qual quatro diretores estão respondendo a processo por conta dessa ação. Na éoca lembro que houve um espernear em forma de liminares partindo de entidades, políticos, partidos e outros interessados mas bem ligeiro tudo foi superado e se entregou à sanha de estrangeiros uma empresa prontinha, sem falar na venda de nosso subsolo, cujas riquezas são imensas em vários tipos de minérios. Foi tudo rápido e de um silêncio conivente. Parlamentares que agora vêm colocar o dedo na cara dos atuais detentores do título de ladrões, já fizeram por merecer, apoiando essa transação vergonhosa. E o povo, como sempre, canta conforme a música , dando eco à sinfonia do momento. Bem ao gosto de quem quer deixar o debate no nível de confronto moral, com um sem fim de escândalos. Marcos Valério não é novo no cenário da república. Isso ficou bem claro em suas declarações. E a gritaria providencial deixa a gente tonto e dificulta outros questionamentos, principalmente este, um legítimo atentado contra a soberania nacional. E não faltou nem a piada para entreter por semanas o imaginário popular, com a história do dinheiro na cueca. Assim também se oferece circo para o povo que, como as ovelhas de Orwel, fica rindo e repetindo bé, bé, bééé...O presidente FHC prestou seu grande desserviço à nação, para usar uma palavra mais branda. Teve o seu momento de glória, que mais tarde comemorou inaugurando um apartamento, onde os móveis eram todos do séc. XVII. Coisas de gente culta e refinada que a plebe não sabe apreciar.Mas o que se vê em todo mundo é essa febre de fazer dinheiro com dinheiro, grandes empresas como a Nike engolindo outras também grandes, numa antropofagia assustadora que põe na tela arrepiantes previsões dignas da mais audaciosa ficção científica.Recebi outro dia um email onde um professor da USPdeu-se ao trabalho de achincalhar o atual presidente com argumentações no mínimo impróprias para um catedrático de tão alto gabarito. Entre outras coisas, disse que Lula é o Forest Gump tupiniquim e faz sucesso lá fora como raridade, tal qual o mico leão dourado. O dito professor de biologia encarnou bem o espírito do dominado que olha com inveja e cobiça para aquele mundo do hemisfério norte , e que depois de tantos cursos de graduação pensa que transformar o intelecto num banco de dados é o que torna uma pessoa superior à outra. Também comete racismo, depreciando a cultura indígena,ao usar a palavra tupiniquimde forma pejorativa. O presidente Hugo Chavez tem recebido seu quinhão de desprezo, só porque , como aquele iraquiano, não se deixa libertar facilmente, imaginem, aquele índio com cara de pobre, "quem ele pensa que é?"Tenho no meu quarto um balaio feito pelos índios. Deixei –o num lugar bem visível e nunca esqueço daquela mulher de olhos puxados no meu portão com um menino num braço e o tal balaio no outro. Aquela gente jogada pelas calçadas um dia foi dona dessa terra e não precisava mendigar para viver. Nós ainda trazemos na língua que falamos a música e a ternura desses povos ancestrais. Eles são nossos verdadeiros pais. A eles devemos, se outra coisa não podemos dar, pelo menos um grande respeito. Xingar alguém de tupiniquim é rejeitar sua própria identidade cultural, suas origens, isso sim, é se auto-depreciar como povo .

EXTRA, EXTRA, VEM AÍ O PARAÍSO I I

Nosso mundo virou um imenso reclame. Fomos transformados num interminável catálogo de sim e não, onde grassam todas as proibições possíveis de um lado, e de outro, uma permissividade jamais sonhada nem nos melhores dias de Pompéia.Mas dizer um não que se preze é ofício que exige, no mínimo, uma posgraduaçãozinha , mesmo tendo sido feita na Faculdade da margem esquerda do Amazonas, ou no novo intensivo noturno por correspondência, o INC, aprovado pelo MEC nas brechas da lei. Essas proibições caem como canivetes sobre nossas cabeças. Não dá pra abrir um jornal, ligar a tv,olhar uma revista sem lá encontrar o Dr. Entendido falando, desde a melhor maneira de cortar a unha do pé, até o jeito mais apropriado de tirar a casca da banana. Espetados de um lado e de outro, ora pelo que é correto, ora pelo que não, nossa vida vai-se transformando num verdadeiro corredor polonês. Temos informação em excesso. O mundo vem abaixo na voz do homem do jornal das oito, muito sangue escorre e já é rotina ver quantos acidentes mataram quantos. Dizer que notícia boa não vende é chover no molhado. O Mario Quintana servindo pra publicidade disfarçada. Muita gente faturando por conta do poetinha. Quem foram os escritores que venceram o concurso Mario Quintana? Não pensem em ver esse tipo de informação facilmente. Tem que garimpar. E, de repente, vejo-me desligando a tv freneticamente, jogando jornais novos no lixo, sentindo-me sufocada diante do micro. Seu enorme olho me trespassa sem piedade. Não sei se é o cansaço da madrugada, mas fico impotente diante dele. Sua voz em zzzzz contínuo revela a estrutura que informa e registra,sem sangue nem estremecimentos, e eu o odeio e invejo ao mesmo tempo. Esse microondas que aquece os pratos pré- prontos da culinária internacional da Net se posta a nossa disposição como um cão obediente,sem abanar o rabo,mas impávido na sua servilidade de máquina. Ele chegou pra ficar e está se encarregando de minar o bicho existente em cada criatura. Uma legítima caixa de Pandora sob o ponto de vista relações humanas. Sobreviveremos?Foi-se o tempo em que a gente podia ser indiferente. Qualquer movimento que se faça desde a hora em que botamos o pé fora da cama, está inserido no contexto. Uma vez de volta ao mundo real, despencamos do estado onírco para a engrenagem onde estamos devidamente numerados, fichados, neste batalhão de insanidade organizada. Bons tempos aqueles onde não havia esse bombardeio de isso é bom, isso dá câncer, dá celulite, retém líquido, longevidade, qualidade de vida ,calorias,campanhas contra e a favor, protestos...Me faz lembrar da frase de um amigo que gostava de brincar com as novidades. E era a década de 70: "Esse negócio de educação moderna é bobagem. Pai tem que dar é bóia e uma tunda de vez em quando e pronto." Tal afirmação remete ao ideal da simplicidade: o sol nascendo todos os dias, a gente trabalhando, alimentando-se, às vezes festejando, fazendo orações, consolando um amigo, comendo uma talhada de melancia, dormindo a sesta, até morrendo melhor na própria cama, com pessoas conhecidas te olhando, e no mais o barco segue que as águas se encarregam. Estamos sufocando em nosso próprio lixo, mas com muita classe, com muito detergente, muita estupidez travestida de cultura. Não há purpurina que baste para tanto exibicionismo estéril. Que até Deus se cansou desse povinho e foi curtir umas férias, quem sabe nas ilhas do Paraíso II, onde terá criado um novo casal, não, ele não faria isso. Bem, só Deus sabe... E cá pra nós, seria aquele furo de reportagem! O

O DINHEIRO NÃO TEM BANDEIRA

Existe circulando pela internet uma infinidade de piadas, caricaturas, críticas pesadas e outras manifestações contra o atual presidente da República. Acho que é bom que possamos nos expressar com liberdade, afinal isso é bem democrático, para usar a palavra meio gasta, mas que surge seguidamente nos debates.Entretanto, apresentar Lula como um excremento é fazer como o cachorro que ladra enquanto a caravana passa. Pode até funcionar para risadas,reforçar um sentimento anti alguma coisa, mas não vai ao essencial. Eu acho que deveríamos fazer charges mais abrangentes e ter outras atitudes, se quisermos passar uma mensagem realmente modificadora.Uma delas é votar. Especialmente votar contra o sistema que está bem representado por mais de um candidato. Nada de picolé de chuchu, devemos provar outro sabor, mesmo uma pimenta agressiva pode ser um bom voto de protesto contra o que todos reclamam. Pelo menos no primeiro turno. Depois, provavelmente entre a cruz e a caldeirinha, paciência, talvez seja mais prudente permanecer no inferno já conhecido. Particularmente, não alimento ilusões, nós não teremos um salvador da pátria. Pensar que sim, também faz parte do márquetin. Mas voltando às particularidades brasileiras, como surgiu esta história de que o nosso povo tem tanta raiva de pobreza? Primeiro mundo, ver e babar, é uma frase que se dizia por aqui quando há muitos anos passava um comercial do Martini Bianco, todos num iate vestidos de branco, voiles esvoaçantes, sorrisos ortodônticos, uma beleza. Fomos transformados em consumidores por manobras bem direcionadas, uma delas incidindo sobre o sistema educacional,além do empobrecimento no campo que levou ao inchaço das grandes cidades e ao processo de desaculturação progressiva. É uma piada triste mas lembrei de um argentino que morava há tempo em Porto Alegre e um dia falou: brasileiro tem é coca-cola nas veias. É no hemisfério sul que se concentra o grande curral consumidor do lixo que jogam sobre nós, compramos muito, assimilamos muito, trabalhamos muito para ouvir ainda, dito mesmo por compatriotas, que brasileiro é vagabundo. Vagabundos são os que nos exploram e trabalham 20 horas semanais.Vejamos, então, só uma ponta do iceberg. Sempre que se fala em espetáculos televisivos, especialmente novelas, diz-se que o povo não gosta de ver pobreza, que tem raiva de pobre, que gosta do luxo. É uma falácia travestida de verdade e que serve muito bem aos que puxam os cordões da marionte. Aí ficamos nos xingando,vejam só esse presidente, todo mundo roubando, vamos colocar lá em cima um homem formado, especialmente com pós graduação na Sorbonne, ou um industrial rico que não precisa roubar, essas baboseiras todas e pior, um que rouba mas faz e pasmem, elege-se mais de uma vez. E a emissora representante dos mais iguais continua colocando a isca apropriada em sua novela das nove, um mundo de ócio, dinheiro fácil, e pra variar temos agora uma classe "média" onde fora os criados, só duas pessoas trabalham (uma é médica)e suas casas são cinematográficas,a distribuição de jóias da falecida transcorre num clima de peguem essas coisinhas (ver e babar), uma cena bem comum na realidade brasileira, pois não? Então, os "duros" sonham com as uvas lá em cima, ficam esperançosos, quem sabe? Aí,a verdadeira classe média, mais mobilizada e pronta que seus irmãos menos favorecidos, faz o serviço sujo e pisa nos de baixo, não deixa eles crescerem em protestos, chama os movimentos dos sem nada de terrorismo, a grande e cada vez maior base da pirâmide. Pra garantir a posição na maratona, na vil esperança de alcançar mais riqueza ou simplesmente de manter privilégios,a classe média serve de capitão do mato, de feitor pro grande senhor da fazenda, que hoje não é um lugar, não é um país, é qualquer paraíso no planeta, onde o dinheiro não tem bandeira. (Acho que estou correndo risco porque o que eles mais detestam é um bom nacionalista, esses filhos da mãe!)E não pensem que essa gente de quem falei são os outros. Na atual conjuntura, nós que comemos três refeições por dia, estamos aí diante do micro, fazemos parte desse povo. E já faremos muito se tomarmos consciência desse fato, tentarmos divulgar a idéia para que no caso de chegar o nosso dia de debaixo da ponte, acampamento de lona, miserê legal, possamos ouvir algo melhor dos de cima do que" são uns vagabundos, tem que matar tudo, chamem a CIA (essa escapuliu). Eta mundo velho sem portera, que saudades da vida besta que o Drummond execrava em início de carreira. Dá pra resumir com uma frase de um personagem do Quino,cartunista que fez sucesso na década de setenta, provavelmente a Mafalda: "no se trata de de herir suscetibilidades, sino de matar-las." Só que agora os vilões se tornam invisíveis, não têm endereço, não baixam no terreiro, não usam fardas, esses são ainda piores.

DANÇAR BOLERO EM DÓ MENOR

Ele dançou como doido. Gastou a sola do sapato em passos ritmados e exatos. Pairava no ar aquele misto de perfumes, cigarro e mofo. Mas pra ele era o céu, aquele lugar barato de pessoas baratas. Pra Etevaldo que saíra há pouco da cadeia, aquela sala seria o próprio paraíso se não tivesse tanta cara de inferno. Já estava meio alto e sua parceira começava a se inquietar. Os passos aos poucos passavam de exímios pra entrecortados e desciam rápido pra incongruência das linhas. O oblíquo e o transverso, uma geometria desmesurada, onde o bico do sapato ia achar sem dó a canela da moça e os joelhos dele não conseguiam mais fazer o vaivém jeitoso. O braço em torno da cintura tão elegante, agora parecia mais um gancho tosco a prender uma boneca de pano, pois os pés dela começavam a se distanciar do chão e a mão na mão tinha virado um me seguro pra não cair.. Etevaldo sente um braço em torno do pescoço, que é isso cara, me larga, que que há rapá, e vai largando a dama enquanto tenta se virar e ver qual é o tamanho da encrenca. Ela, coitada , sai arrastando um pé que perdeu o sapato,enquanto tenta endireitar o corpo olhando meio de cima, aparentando calma, mas seu cabelo arrepiou prum lado e o vestido rasgou a costura no esforço.O segurança conduziu-o à porta e ele a se fazer de desentendido. Não pode abusar no salão ô cara, quem, eu, estava só dançando, isola!!! Finalmente ficou sozinho. Chegou à calçada balançando o corpo . A voz da cantora ondulava em tons menores, próprios de boleros soluçantes. Besa-me, besa-me mucho, como se fuera esta noche la ultima vez...Etevaldo ali, uma trouxa de gente com o terno desalinhado que o defunto era maior, ruminava idéias desencontradas, escorado na parede, até que foi escorregando e alcançou o chão de mau jeito. Puta merda, que porra é essa que tem aí? Os joelhos quase no queixo, não conseguia mover-se e uma dor aguda mais o contato com a mão lhe indicaram a presença de um caco de tijolo, sobra de uma reforma interminável. Foi obrigado a deitar-se de lado e apoiar as mãos no chão. Assim ergueu-se. Ao tentar dar um passo, aaaiii! e saiu mancando.Lá dentro, as poucas pessoas que haviam presenciado o fato, já nem lembravam mais, envolvidas com a dança e a música. A cantora, uma senhora gorda, vestido de cetim vermelho, mostrava mais do que devia suas carnes já bem amarrotadas. Etevaldo, um pouco mais lúcido, ficou espiando pelo vidro da porta, o único detalhe do prédio que aparentava uma certa elegância. A primeira reação foi de tristeza, a hora em que o álcool começa a queimar glicose e o estômago a dar sinal de vida mais a cabeça inflada sobre os ombros. Arrancou o paletó com raiva e puxou a camisa pelos botões, jogando tudo longe. Em seguida, irritado com o mal estar e caindo em si da sua deplorável condição, orgulho ferido, ferida velha que sangra a qualquer toque, respirou fundo e foi direto à porta.Agora os casais enchiam a pista naquela hora em que os arroubos cederam lugar ao cansaço e a uma certa melancolia. O piston escorria suave numa afinação perfeita. Então a dama de cetim crescia, se emocionava e lá vinha mais um bolero. Relô no marques las horas, torna essa noche perpetua, tu te iras para siempre, antes que amanesca otra...Aí ouviu-se um tremendo estouro e uma cena dantesca apresentou-se. A porta de vidro veio abaixo em mil cacos como uma avalanche e, do meio dela surgindo, com o torso nu, a triste figura do escorraçado. As pessoas ainda não refeitas do choque, ficaram paralisadas e ele, a passos largos,se foi em direção ao pequeno palco. Dona Odete, a cantora, ergueu a saia longa com as duas mãos e abandonou o coreto, pés afastados que nem pata,pra se equilibrar na escada. O alvoroço era geral. Mas a curiosidade ainda segurava a maioria do pessoal dentro da sala. Quando se deu o grand finale. Etevaldo arrancou o cabo com o microfone, colocou sobre a coxa e quebrou em dois pedaços, como se fora um graveto qualquer.Aí a debandada foi geral. E no meio daquela confusão, o dono da casa, pressentindo o prejuízo, se botou a berrar:- Meu Deus, mas como, será que não tem um homem neste bar? Aí,não sei de onde, apareceram dois. Foi o fim de uma noite e da liberdade também. Logo a viatura da polícia levava o desgostoso prum lugar que ele já conhecia muito bem e de onde sairia pra tornar a voltar, por muitas vezes ainda.
tania orsi vargas
Publicado no Recanto das Letras em 29/06/2006Código do texto: T184617

VIVA TAQUARA!

Foi uma grata surpresa constatar que minha humilde cidade foi citada várias vezes em uma crônica publicada neste Recanto das Letras. E saber que tal acontecimento se deve exclusivamente à minha participação nestas paragens, com meus despretensiosos trabalhos literários, deveria ser motivo de grande alegria.
E tudo por um acaso dos mais interessantes. Eu resolvi fazer um comentário sobre um fato que está na mídia há alguns dias. Mesmo eu não costumando assistir a noticiários de TV, fica impossível não ouvir a ladainha que se arrasta espichando de forma patética a histórai da única vítima retirada até agora, uma senhora idosa que passava pelo local. Haja defunto pra vender!!! Eu até acho mais honesto, mesmo que indecente,neste caso, o noticiário de um canal menos importante, onde ficam horas de plantão para mostrar os acidentes nesta grande metrópode paulista. - Mostra a mulher morta! grita o repórter para o câmera. - Aqui, filma aqui, olhem telespectadores, a mulher grávida dentro do carro vai ser retirada, ela está muito ferida, olhem!!
Infelizemente os noticiários vertem sangue e todo mundo sabe disso. Provavelmente não é por acaso que tal acontece. Tragédias agitam, assustam, deixam as pessas mais vulneráveis... mas não vou me estender nessas considrações. Eu falava da minha cidade. Realmente ela também faz parte do Brasil. Ainda que no extremo sul, longe do umbigo nacional, sem nenhum atrativo especial, nem imune a problemas sociais.
Eu sempre soube que nós gaúchos, por esta distância geográfica do centro do país e por outros acontecimentos no passado político brasileiro, bem como uma postura muito "bairrista" em relação a nossas coisas, sofremos certa discriminação, especialmente por parte de quem não gosta de posicionamentos digamos, incômodos. Mas o que eu não imaginava é que uma pessoa daqui de baixo como eu seria interpelada e admoestada , mesmo que de forma sinuosa, por ousar opinar sobre problemas que ocorrem na cidade de São Paulo neste instante ainda. O que eu não sabia é que precisava de licença especial para ousar dar palpites sobre grandes metrópoles, eu disse metrópoles, citei inclusive a cidade do México. Gostaria de lembrar que, além de possuirmos aqui no Rio Grande sérios problemas sociais como qualquer estado deste Brasil, também fazemos parte do território nacional, também somos brasileiros e tudo que acontece neste solo pátrio casualmente poderá despertar em nós gaúchos, sentimentos, reações, atitudes, enfim, qualquer posicionamento. E que ainda não estamos pedindo licença pra nenhuma pessoa que , sendo brasileira como nós, resolva decidir se podemos ou não opinar sobre determinado assunto. Isto sim, seria lamentável porque estaria trazendo à tona outra catástrofe que ameaça este país, que não a ecológica. Esta realmente preocupa.

A CIDADE É SEU PRÓPRIO ALGOZ

Horas e mais horas de filmagens, entrevistas, choro, parentes, o governador, o bispo...não, este ainda não apareceu, ainda é só para dar a conotação de exagero que representa mais esta história trágica de uma grande metrópole.Vendo o número de vítimas, pouco mais de cinco, fiquei a pensar no número estatístico de mortes diárias e muitas vezes anônimas nesta monstruosa capital. Pensei no porquê de tanto alarde sobre um fato que, se olharmos pelo número de mortos, torna-se minúsculo diante do acidente generalizado em que se constitui a própria existência de metrópoles gigantescas como esta. Vem-me à mente o motivo de sua existência. Todo mundo sabe que a população de São Paulo inchou com imigrações recentes em termos históricos, mas que se agigantou com a migração interna, resultado especialmente, do êxodo de nordestinos em busca do sul sob total desespero. Assim também aconteceu na cidade do México que é uma monstruosidade que abriga pessoas egressas dos campos miseráveis.Assim, criados estes monstros urbanos, com seus milhares de veículos circulando todos os dias, ninguém deveria ficar admirado que, de vez em quando, de tanto remexer e remexer para que esta gente se movimente melhor, algo viesse abaixo, porque me parece impossível que em tal barafunda de estruturas, em tal parafernália infernal, a terra não ceda de vez em quando, afinal, a Terra está a girar, as árvores a crescer, mas o homem com suas mãos está a destruir, a cimentar, a esburacar e a poluir o planeta há muito tempo. Temos que pagar o preço. Há descuidos, há desvios, há má intenção? Sim, existe tudo isto! Entretanto, convenhamos, esta cidade vista assim na reportagem, com vias sobrepostas e aquele trânsito caótico é de dar um nó na garganta. E agora os jornais exploram pra vender, pessoas podem lucrar com alguns minutos na telinha, a intimidade das famílias em sofrimento é exposta vergonhosamente na TV como espetáculo.E não demoram a aparecer os que aproveitam pra gritar por justiça, faltam só as passeatas com aqueles cartazes que surgem pateticamente diante do que não tem solução. Ou melhor, cuja solução exige atitudes de cidadania que o comodismo e o individualismo de muita gente que reclama não permitem assumir. Grita-se contra os governos, melodramas surgem em crônicas oportunistas, como se a tragédia desse povo não fosse assunto diário e corriqueiro. Como se hoje mesmo em São Paulo não vão morrer bem mais que cinco pessoas, em circunstâncias de violência, descaso, miséria e outros problemas, cuja cronicidade aponta para um futuro ainda pior. A IMPRENSA VENDE, OPRTUNISATAS FAZEM ALARDE, A CIDADE É SEU PRÓPRIO ALGOZ!!!
tania orsi vargas
Publicado no Recanto das Letras em 15/01/2007Código do texto: T347753

MEDIOCRIDADE ASSUMIDA

Amanhecer como todo o santo dia nestes últimos anos de minha vida, esquecer sempre a chaleira no fogo, perdida em uma leitura interessante, estar a mercê de minha intransigência e má vontade com aquilo que abomino, eis uma cilada diária que, oferecendo sempre o mesmo perigo, sendo já conhecidos seus malefícios, ainda assim, inadvertidamente, de forma masoquista quem sabe,me fas despencar no seu abismo sempre outra vez, tendo feito todos os bons propósitos na noite anterior. Estou a dar voltas e voltas pelas mesma trilhas, que de tão gastas já oferecem os sulcos das pisadas, bastando simplesmente colocar o pé nas marcas traiçoeiras. A noção de tempo decorrido se torna simplesmente impossível,estamos tontos e desamparados, estamos tristes, aborrecidos, e a morte é uma linha de chegada imaginária e cruel, entretanto a única certeza enquanto respiramos.O telefone toca, as cartas chegam, o sol aparece e desaparece, e março chega e dezembro vem e a rio se enche com as chuvas e baixa nos tempos de seca. O jornal na tv conta todos os dias a mesma história com novas e velhas personagens, a praça se enche na animação de um evento e amanhece vazia numa ressaca de brisa leve, algum papelziguezagueando semr rumo. Minhas mãos estão estranhas com a pele ressecada pelo tempo e parecem me olhar e pedir socorro. E eu não sei o que fazer com elas nesta manhã de céu tão azul e uma inutilidade desconcertante. O que valeria a pena ainda neste fim de festa? O que seria preciso pra preencer os dias e suportar as noites?Queremos a segurança de uma paisagem familiar que ampare nossa perplexidade. Ao diabo com a segurança, ao diabo com a cordialidade bestializante. Não quero esse medo que me afasta dos perigos e me paralisa os gestos. Ser generoso, cordato, deixa nossa alma em frangalhos de bondade. E são tão doces os laços firmes da tirania familiar. E são ao mesmo tempo tão cruéis na sua bondade catequisadora! Nossas melhores crenças não resistirão aos vislumbres da velhice. E a grandeza das almas nobres é um verniz que não sobreviverá a dois invernos de guerra e fome. Resta a verde e patética resignação. E as lembranças de mentiras possíveis. Resta o tempo pra gastar em passeios por trilhas circulares, resta a luz do dia, a sombra da noite, a cama, a dor, a fome, o tédio.

MEDIOCRIDADE ASSUMIDA

Amanhecer como todo o santo dia nestes últimos anos de minha vida, esquecer sempre a chaleira no fogo, perdida em uma leitura interessante, estar a mercê de minha intransigência e má vontade com aquilo que abomino, eis uma cilada diária que, oferecendo sempre o mesmo perigo, sendo já conhecidos seus malefícios, ainda assim, inadvertidamente, de forma masoquista quem sabe,me fas despencar no seu abismo sempre outra vez, tendo feito todos os bons propósitos na noite anterior. Estou a dar voltas e voltas pelas mesma trilhas, que de tão gastas já oferecem os sulcos das pisadas, bastando simplesmente colocar o pé nas marcas traiçoeiras. A noção de tempo decorrido se torna simplesmente impossível,estamos tontos e desamparados, estamos tristes, aborrecidos, e a morte é uma linha de chegada imaginária e cruel, entretanto a única certeza enquanto respiramos.O telefone toca, as cartas chegam, o sol aparece e desaparece, e março chega e dezembro vem e a rio se enche com as chuvas e baixa nos tempos de seca. O jornal na tv conta todos os dias a mesma história com novas e velhas personagens, a praça se enche na animação de um evento e amanhece vazia numa ressaca de brisa leve, algum papelziguezagueando semr rumo. Minhas mãos estão estranhas com a pele ressecada pelo tempo e parecem me olhar e pedir socorro. E eu não sei o que fazer com elas nesta manhã de céu tão azul e uma inutilidade desconcertante. O que valeria a pena ainda neste fim de festa? O que seria preciso pra preencer os dias e suportar as noites?Queremos a segurança de uma paisagem familiar que ampare nossa perplexidade. Ao diabo com a segurança, ao diabo com a cordialidade bestializante. Não quero esse medo que me afasta dos perigos e me paralisa os gestos. Ser generoso, cordato, deixa nossa alma em frangalhos de bondade. E são tão doces os laços firmes da tirania familiar. E são ao mesmo tempo tão cruéis na sua bondade catequisadora! Nossas melhores crenças não resistirão aos vislumbres da velhice. E a grandeza das almas nobres é um verniz que não sobreviverá a dois invernos de guerra e fome. Resta a verde e patética resignação. E as lembranças de mentiras possíveis. Resta o tempo pra gastar em passeios por trilhas circulares, resta a luz do dia, a sombra da noite, a cama, a dor, a fome, o tédio.

AS NOSSAS ASAS DE ANJO

Nossa vida transcorre em uma linha horizontal, com vibrações ocasionais que variam de cor e intensidade e pra se manifestarem dependem de certas condições que nada têm a ver com eventos de oredm material. Elas são de outra essência e de outra natureza. Nesses momentos, abre-se uma linha de luz que nos conecta diretamente com os anjos. E quanto mais nos demorarmos a desfrutar tais momentos, mais vezes e de forma mais intensa teremos oportunidade de vivenciá-los.Nesta época de Natal, as pessoas se tornam mais vulneráveis e suscetíveis a bons sentimentos, o que pode facilitar a conexão. Mas o maior inimigo desta graça revelada, reside nos obstáculos construídos pela necessidade de qualificar as pessoas por aparência, posição social e tdos os entraves que fomos criando para uma grande segregação esterilizante que divide as pessoas por critérios absurdamente maldosos.Comprei dois pacotes de milho verde de uma moça que bateu à minha porta. Ela provavelmente estava trabalhando para algum pequeno produtor e sua aparência contava das dificuldades que teria passado na vida. Entretanto ela estava ali, tranquila, quase feliz, e ao sair me desejou feliz natal. E apesar da fórmula tão velha e gasta, aquele desejo expresso em uma situação tão insuitada me tocou profundamente. Ela não sorriu, a voz não teve modulações especiais, mas houve uma secreta vibração que nos envolveu naqueles poucos instantes em que eu lhe entregava o dinheiro , ela falava, nossos olhares se cruzavam em sintonia e aí ela alcançava o portão para seguir sua vida. Ainda ensaiei um esboço de compaixão ou outro sentimento que pode surgir em situações em que ficamos diante de pessoas mais humildes, mas ele não vingou. Algo muito acima dessas preocupações materiais havia acontecido.A moça se agigantara como um ser único que me desejou feliz natal e sua sinceridade, captada por um sensor especial que vamos desenvolvendo com a experiência e a observação, fez resplandecer minha alma, tal qual fala a oração sobre a presença iluminada de Cristo.Nosso encontro não teria sido possível se não estivéssems aninhadas na mesma frequência . Estando eu na defensiva, ou tendo galgado maquinalmente alguns degraus acima por preconceito ou má vontade e a mágica não teria se consumado. Essa que permite encontros em nossa vida, capazes de marcar profundamente e provar que a verdadeira natureza não é compatível com qualquer lei ou regulamento ou posturas arrogantes. Uma mágica divina que precisa ser encorajada a se manifestar, não sendo compatível com qualquer apego ou estéril exercício de materialismo.Assim como diante da morte ou de situações limite, onde a exacerbação de nossos sentimentos em dor, perplexidade, faz reformular antigas posturas, o Natal, mesmo como todo o consumismo, ainda mexe com nossas lembranças mais arraigadas, subconscientes. E vai deixando pistas para contatos numa vertical fulgurante, em escapadelas fantásticas, onde o bicho deixando sua cápsula grosseira, eleva-se como queubim alado. ASSIM COMO NAVEGAR, VOAR É PRECISO!! FAÇAMOS NOSSAS VIAGENS EM ESPLENDOR, ALEGRIA E SOLIDARIEDADE!!
tania orsi vargas
Publicado no Recanto das Letras em 20/12/2006

O VELHO E BOM SEXO

O erotismo existe desde Adão e Eva e, sendo o sexo uma força tão poderosa, é de se esperar que durante toda a trajetória da humanidade ele fosse provocar os mais variados conflitos e escaramuças. E a literatura não poderia deixar de conter esse tema nas mais variadas formas. Por outro lado, a repressão sexual foi sempre instrumento de dominação, pois a liberdade no sexo leva a um comportamento menos controlável pelo sistema, uma vez que torna o indivíduo menos sujeito à qualquer doutrinação castradora. A presença massiva de pornografia em nossos dias vem comprovar que estamos longe de uma liberdade sexual. O que existe é uma grande libertinagem, uma promiscuidade explorada como ótimo negócio, inclusive com a famigerada pedofilia. A repressão sexual nunca foi tão grande, do contrário o sexo não seria a mercadoria tão cobiçada e geradora de fortunas. Se ele fosse encarado naturalmente, ninguém pensaria em aparelhar-se entrando em sex shops ou acionando canais privé na internet. Trepar seria tão simples como saborear uma fruta. E uma bunda teria dois hemisférios e seria simplesmente uma bunda, não serviria pra vender cerveja, nem pra anunciar automóveis. Existe uma grande diferença entre literatura com temas ousados, onde o sexo é retratado por escritores competentes e de forma literária, como é o caso de Henry Miller, por exemplo, e textos sensacionalistas e comerciais, produzidos com o único intuito de ganhar dinheiro. Tais escritores têm uma postura e uma história de publicações que ratificam sua competência e intenções. Acontece o mesmo com a pintura abstrata. Um pintor que já se consagrou com telas que comprovem seu talento pode fazer seu abstrato sem passar por embusteiro. Porque para um público sem prévios esclarecimentos, no campo do abstracionismo da pintura, todos os gatos parecerão pardos na penumbra do traço e do domínio cromático. Assim também, para um leitor menos crítico e informado, onde o sexo for retratado de forma mais crua ele verá a licenciosidade. A pornografia é um ótimo negócio e se apresenta nas formas mais diversas, além do texto escrito. Ela se alimenta da solidão e carência das pessoas. Também das suas condutas doentias, resultado de uma moral castradora. Não seria mais simples encontrar prazer como bichos que somos? Acontece que o bicho que "somos" está enclausurado e preso a tantos modismos, necessidades artificiais criadas por quem quer nos fazer massa de manobra, consumidores das coisas produzidas, está tão atrapalhado com a vitrine de possibilidades, com a "imagem" de si próprio que os meios de comunicação projetam nas telas, que já não sabe direito quem é verdadeiramente, se o velho animal de carne e osso, ou aquele no telão, com dentes branqueados demais, com as cuecas ou calcinhas marca tal, com a bolsa do Fulano Sódondoca, o carro mais potente (vejam a relação com a libido) que pega todas, o supercelular pra dizer abobrinhas e fazer figura, enfim com tudo que pesa sobre sua simples cabeça de animal mortal e limitado. Perdido diante de um mundo que vê na TV, nos jornais e nas revistas e que está bem longe de corresponder à verdade, o bicho ser humano perde a perspectiva que lhe daria uma vida de paz e bom convívio com seu corpo. Vemos então meninos usando Viagra, meninas esqueléticas, senhoras sessentonas casando de noiva com rapazes quase netos, tudo em nome do prazer, que também virou mercadoria de consumo rápido. Isto é evolução, dizem os ufanistas da superficialidade. E agora temos uma diferença interessante em relação aos primitivos homens de lata. Eles eram feitos pra imitar o homem, realizar tarefas que pra nós são até simples. Mas os tempos mudaram. Hoje somos nós que tentamos imitar as máquinas. Estamos tentando ser o mais mecânicos possível. Nossos relacionamentos carecem de sangue quente. Nossa humanidade é vista como coisa obsoleta . Nestes anos de mudanças e avanços da técnica, progredimos pouco como humanóides. Ainda temos o velho falso moralismo, moral de conveniência, dois pesos e duas medidas, barroca por seu antagonismo. Neste contexto hipócrita, pode-se ver o que já foi mencionado, ou seja, que a repressão sexual é muito grande, o que provocará atitudes ambíguas, em que as pessoas se esforçam por manter uma imagem aprovada pela sociedade, deixando o sexo para o anonimato dos motéis. E como toda mercadoria estigmatizada, torna-se artigo de altos negócios, tem um convívio estreito com a marginalidade e faz parceria com a exploração (veja-se o turismo sexual e o abuso de crianças) e o crime. Neste contexto, o velho e bom sexo ainda permanece na clandestinidade. Talvez fique aí pra sempre, enquanto nossas mutações nos encaminham para um futuro imprevisível.@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@Texto publicado na edição 64 do Clube dos Cronistas CotovelaresE mais:O velho e bom sexo edição #64As Três Marias edição #63Bolívia e Venezuela, uma nova Guerra do Paraguai à vista? edição #62Espirrando os estorvos edição #61Eles não se deixam libertar facilmente edição #59O dinheiro não tem bandeira edição #58